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O Embate Entre Palavras e Imagens Nos Quadrinhos e No Audiovisual


Em seu livro de ficção, 1984, George Orwell cunhou, entre muitos outros, o termo duplipensar. Esse ato significa manter duas crenças contraditórias na mente ao mesmo tempo. Em artes como o audiovisual e os quadrinhos estamos usando dois sistemas de códigos diferentes: a imagem e a linguagem de palavras.

Uma das frases mais famosas de 1984, de George Orwell, o lema do partido do Grande Irmão

Uma das frases mais famosas de 1984, de George Orwell, o lema do partido do Grande Irmão

Ora, muitos estudiosos dos quadrinhos como Douglas Wolk (2007) já afirmaram que a imagem também pressupõe uma linguagem, uma vez que lá estão todos os símbolos que o autor quis passar com sua obra. Existe um embate interessante entre o visual e o textual na compreensão destas duas formas de comunicar. Ao mesmo tempo que separados cada um permite decodificar uma mensagem, quando combinamos ambos os conjuntos de signos, obtemos uma terceira significação. Em seu livro, The System of Comics, Thierry Groesteen falava o seguinte:

Os quadrinhos são antes de tudo uma combinação de um (ou dois, com a escrita) objeto(s) de expressão, e uma coleção de códigos. Esta é a razão pela qual eles podem apenas ser descritos nos termos de um sistema. A partir dele, o problema enfrentado pelo pesquisador não é qual código privilegiar; é acessar o caminho para o interior do sistema que permita explorá-lo em sua totalidade para então encontrar coerência (GROENSTEEN, 1999, p. 18).

To SHOW, not to TELL, uma das grande leis da escrita

To SHOW, not to TELL, uma das grande leis da escrita

Ainda assim, esta dicotomia imagem e texto está para a mensagem assim como a analogia eu falo/eu penso na expressão oral. De acordo com o escritor de quadrinhos Alan Moore, essa mídia funciona de maneira a tecer uma terceira significação além da palavra e da imagem, porque trabalham com os dois lados do cérebro. O lado esquerdo, do raciocínio, interpreta o texto, enquanto que o direito, da abstração, assimila as imagens (PARKIN, 2001). Sergei Eisentein em seu livro O sentido do filme (2002). Eisentein, realizador de obras-primas como O encouraçado Potemkin, explica como a montagem funciona no audiovisual de uma forma semelhante aos quadrinhos:

(…) dois pedaços de filme de qualquer tipo, colocados juntos, inevitavelmente criam um novo conceito, uma nova qualidade que emerge da justaposição. Esta não é, de modo algum, uma característica peculiar do cinema, mas um fenômeno encontrado sempre que lidamos com a justaposição de dois fenômenos, dois fatos, dois objetos (EISENSTEIN, 2002, p. 14).

Já Merleau-Ponty, em seu livro A Prosa do Mundo (2012), diz que a linguagem deve ser concebida para além do conceito e da essência, mas na existência. Ao tomar em consideração esse pressuposto, pretende-se analisar com este trabalho como a junção da imagem e da palavra funciona nos quadrinhos, principalmente num outro sentido: o da experiência. As linguagens pictóricas se utilizam de elipses (RAMOS, 2009) para representar o tempo. A serialização desta forma de comunicar leva seus fruidores a buscarem por uma nova história. Sejam os beats – uma mudança de comportamento que ocorre de ação para reação (MCKEE, 2006) – ou os ganchos – o recuso primordial do adiamento de prazer e captação de audiência (…) e tem vital importância principalmente quanto mais previsíveis forem os enredos e desfechos previstos (COSTA, 2000) –, do continua na próxima edição ou até mesmo o efeito Kuleshov – relação de sentido entre imagens que a montagem organiza, segundo vários tipos de articulações (AMIEL, 2007) – que pode ser provocado intencionalmente ou não no fruidor.

Os beats! BONK!

Os beats! BONK!

Tanto o cinema quanto os quadrinhos exploram a experiência do tempo por meio de recursos como o efeito Kuleshov ou as transições – método básico dos quadrinhos para simular tempo e movimento (MCCLOUD, 2005). Embora ambas as mídias se caracterizem pela narrativa transmitida pelo arranjo de palavras e imagens, apenas o cinema possui um status acadêmico e cultural que designa como arte, enquanto os quadrinhos não contam com o mesmo prestígio. Os estudiosos de quadrinhos e, muitas vezes de roteiros para quadrinhos precisam estudar mecanismos do audiovisual tão escassa é a teoria dos quadrinhos. Busca-se em diversos estudos colocar audiovisual e quadrinhos no mesmo patamar cultural e acadêmico e contribuir para a difusão e reconhecimento dos quadrinhos como uma mídia plena de possibilidades, tal qual o audiovisual.

Aula sobre as transições de Scott McCloud, que você pode encontrar no livro Desvendando os Quadrinhos.

Aula sobre as transições de Scott McCloud, que você pode encontrar no livro Desvendando os Quadrinhos. (clique para ampliar)

Vivemos uma era de convergência. Ela se expressa na sociedade na transformação das formas de produção e expressão cultural, especialmente nas narrativas. É preciso encontrar os mais diferentes meios para fazer a sua mensagem ser transmitida aos mais diferentes tipos de receptor. Hoje desfrutamos de diversos meios de comunicação para difundi-las, adaptando-as às mais variadas formas de leitura. Esse panorama contrasta com o passado não muito distante marcado pela a hegemonia de alguns meios de comunicação de massa. Estes concentravam a produção cultural em um número limitado de formatos e veículos, como por exemplo o cinema, uma das indústrias culturais mais prestigiadas do século passado.

Crise nas Infinitas Telas?

Crise nas Infinitas Telas?

Hoje, esses veículos sofrem a concorrência de novos formatos principalmente aqueles veiculados pela web (CURRAH, 2006). Esses elementos contribuem para a composição da chamada “crise de Hollywood”, vivida pela indústria cinematográfica, em que filmes já exibidos necessitam de tempos em tempos serem novamente oferecidos e remasterizados para as novas gerações e novos tipos de público. Assim, se fez necessário buscar inspiração em outras mídias, algumas delas tradicionalmente desvalorizadas, como o caso dos quadrinhos.  Os quadrinhos se tornaram uma válvula de escape para o cinema, que encontrou nele sua mina de ouro. Hoje, as maiores bilheterias do cinema tem suas bases no universo dos quadrinhos. Essa ligação entre cinema e quadrinhos está longe de acabar. O que se espera é que uma não sobreponha-se a outra mitigando a importância de sua “arte irmã”.

Tem gente perdendo o Sony por causa disso...

Tem gente perdendo o Sony por causa disso…

 

Referências Bibliográficas

AMIEL, Vincent. Estética da Montagem. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2007.

COSTA, Maria Cristina Castilho. A milésima segunda noite: da narrativa mítica à telenovela: análise estética e sociológica. Annablume, 2000.

CURRAH, Andrew. Hollywood versus the Internet: the media and entertainment industries in a digital and networked economy. Journal of Economic Geography, v. 6, n. 4, p. 439-468, 2006.

EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Rio de Janeiro, Zahar, 2002

GROENSTEEN, Thierry. The system of comics. Jackson: University Press of Mississipi, 2007.

MERLEAU-PONTY, Maurice. A prosa do mundo. São Paulo, Cosac Naify, 2012.

McCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: Makron Books, 2005.

MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiros. Curitiba: Arte & Letra Editora, 2006.

PARKIN, Lance. Pocket essentials Alan Moore. London: Pocket Essentials, 2001.

RAMOS, Paulo. A leitura dos quadrinhos. São Paulo: Contexto, 2009.

WOLK, Douglas. Reading comics: how graphic novels work and what they mean. Cambridge: DaCapo Press, 2007.


Arquivado em:destaque, quadrinhos, Teoria dos Quadrinhos Tagged: 1984, alan moore, andrew currah, audiovisual, cinema, destaque, douglas wolk, efeito kuleshov, george orwell, lance parkin, maria cristina castilho costa, marice merleau-ponty, o encouraçado potemkin, o sentido do filme, paulo ramos, quadrinhos, robert mckee, scott mccloud, sergei eisenstein, the system of comics, thierry groesteen, vincente amiel

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